Para quem não sabe o que era o Kickfire, segue uma explicação rápida: um equipamento (appliance) dedicado a rodar uma versão modificada do MySQL, em doses cavalares de memória RAM (o equipamento que tive o prazer de testar tinha 500GB de RAM, e era o “menorzinho” da família). Logo, vocês já podem imaginar que uma de suas características era subir todo o banco de dados para a memória. Outra coisa que chama atenção (ou chamava) era o fato de ele vir com um chipset SQL. Isso mesmo! Um chipset responsável por otimizar as declarações (comandos ou instruções, se preferir) SQL.

Meu primeiro contato com o Kickfire foi em 2009, quando conheci o produto na MySQL UC e visitei as instalações da empresa (de mesmo nome) para um laboratório mais profundo. 

O produto em si, era excelente. E até bonito! Um gabinete imponente, de respeito. A performance era algo do tipo: “Você tá de brincadeira comigo né?”. Eu diria que Houdini tinha algo a ver com aquela performance. Só para uma comparação, hipotética, uma “query” que levou 15 minutos num DL385, 2 Xeon 3ghz, 16GB/RAM, Discos de 15K; no Kickfire levou pouco mais de 40 segundos. É uma diferença infernal! Isto em uma base de dados de algo em torno dos 300GB. É claro que fiz questão de me assegurar que as bases eram idênticas, e que o “tuning” do MySQL estava em “seus melhores dias”.

Os dois engenheiros que me acompanharam conheciam os pormenores do equipamento, do MySQL, de física quântica e de astrologia 😉 Quero dizer, a qualidade técnica do pessoal envolvido com o projeto era fabulosa.

Qual o alvo do Kickfire? Data Warehouse. OLAP.

Cabe dizer que seria mais um player num mercado bem concorrido com uma penca de soluções, de natureza tão diversa quanto: soluções baseada em software, soluções baseadas em hardware, hardware e software, tudo isto misturado e mais uma dose de “reza braba”.

A verdade é que, por mais que eu gostasse do produto, do gabinete “bonitinho” e do logo… A empresa ruiu em agosto deste ano, inclusive, até o “site” foi tirado do ar. Tentei contato por email e por telefone, mas tudo que eu ouvi foi: “a empresa está se reestruturando”. Às vezes, tenho dificuldade com o inglês, assim como, com o português. Tem muitas palavras, regras, orações ordenadas… subordinadas… Ufa, por isso prefiro o “bináriês”, bicho, ou é 0 ou é 1. Não tem meio termo. Fiquei pensando: “Que diabos significa reestruturar?”. Sei lá!

O fato é que a empresa levou um “shutdown +F”… hahahaha. Por favor, não procurem a opção +F no “man” do “shutdown”. Usem a força para descobrir o que significa.

De qualquer forma, é uma pena. Vi rumores de que a Teradata teria comprado, ou pelo menos, estaria negociando a compra da marca, do quadro de engenheiros e da tecnologia. E tudo isto pelo tradicional modelo “na bacia das almas”.

O que leva um produto tão bom a fracassar de forma tão retumbante? Seguem os palpites de um “palpiteiro” profissional:

a) Precisamos aceitar que somos técnicos. Nem todos nós somos Jobs’, Sergeys, Pages, Elissons ou Zuckbergs. Nós escovamos bits&bytes, e, se quisermos empreender em alguma idéia matadora, no algoritmo das galáxias, precisamos nos associar a gente competente em marketing & administração. E isto, não havia na Kickfire;

b) Preço. No final do dia, as empresas compram preço. Qualidade, Resiliência, Performance, Suporte tem de estar implícito em produtos desta natureza. O preço é o detalhe. Vocês acham razoável um equipamento destes custar USD 50K nos Estados Unidos? Com esta gaita dá para comprar duas Mercedes na terra do Tio Sam. Não é acessível a maioria das médias empresas. Existem outras soluções concorrentes a preços muito mais competitivos;

c) MPP (massively parallel processing) era uma característica que faltava ao Kickfire. Equipamentos para processamento de grandes quantidades de dados devem ter esta característica como “feature zero”, ou seja, nem deveria constar na lista de características, deveria ser item de série. 

d) MySQL nem tão mysql assim: O MySQL que rodava no Kickfire era uma versão proprietária do MySQL, fechada, transformada. Transformaram a Sakila em um boto cor-de-rosa. Pode? Não preciso dizer que o MySQL deles não era 100% compatível com o nosso MySQL.

e) Por último e não menos importante, vendas e atenção ao cliente. Alguém tentou comprar ou conseguir informações comerciais do produto? Não? Sorte de vocês! Um total colapso. Não existia um departamento de vendas definido. Como toda “startup” do Vale do Silício, é possível que a encarregada pela limpeza fosse mais habilidosa no trato com os clientes, mas, não conhecia nada de bits&bytes.

Tudo bem, mas, são só palpites… O fato é que: é uma pena. Era um grande produto! Existem outras excelentes opções, tais como: Teradata, Netezza, Dataupia, etc… E outros, mais ligados ao nosso ecossistema, como: InfoBright, Virident, InfiniDB, etc.

Alguém pode estar se perguntando: “Por quê o Alexandre não incluiu Gates’ no item a?”. A resposta é simples: ele fez fortuna com TI, mas, não é, necessariamente, um especialista no assunto. Certo? Afinal, quem gosta de tela azul?